Por que eu soldo antes de simular
A simulação acha o erro que você previu. A bancada acha o erro que você cometeu.
Todo Plano B de hardware começa como simulação. É cômodo: o LTspice não reclama de horário, o modelo de eletrodo nunca descasca, e o resultado cabe num print de tela bonito. Passei os primeiros anos da minha carreira achando que a ordem certa era simular → projetar → soldar → medir. Hoje a ordem é soldar → medir → simular o que surpreendeu.
O que mudou não foi desprezo por simulação — uso simulador o tempo todo, inclusive no VERIDOSE para validar a cadeia analógica antes de mandar a placa. O que mudou foi o meu modelo de onde mora o erro. No meu tipo de projeto (instrumentação de sinal fraco, nível de µV a mV), o erro que derruba um projeto raramente é o ganho do amplificador que a simulação pega. É o trilho de retorno que passa sob o ADC. É o cabo de eletrodo de 40 cm funcionando como antena. É a palavra “típico” no datasheet, que significa “na conditions que o engenheiro de aplicações considerou razoáveis”.
Esses erros têm duas propriedades incômodas. Primeira: a simulação só os acha se você suspeitar deles antes — e suspeitar do erro certo é a parte difícil, porque o erro verdadeiro é sempre do tipo “eu sabia disso”. Segunda: eles somem quando o sistema é limpo demais. Placa nova, fonte de bancada regulada, massa curta — tudo conspira para o circuito se comportar melhor que o real.
Então o meu fluxo atual é: simular o que há consenso na literatura (topologia, valores de componente, margens grosseiras), soldar cedo o que tem escolha de layout, e medir no pior caso que eu conseguir montar — cabo do tamanho real do paciente, fonte do hospital, eletrodo de três dias de uso. O simulador entra depois, para explicar a diferença entre os dois mundos. A diferença é o dado.
Tem um efeito colateral bom: soldar cedo obriga a placa a existir. Um esquemático bonito é uma hipótese; uma placa rev.A é um compromisso. Quando a placa chega com erro, o custo de corrigir ensina mais em uma semana do que um mês de iteração de simulação — porque você é obrigado a medir de novo, com o sistema sujo, e anotar.
Não é um argumento contra simulação. É um argumento contra achar que simulação é validação. Simulação é teste de hipótese; bancada suja é teste de realidade. A ordem importa.